VIDA: PARTE 2

Depois dos 40 a boa notícia: que sociedade, que nada. Não é ela que banca suas ideias, não é ela que enxuga suas lágrimas, não é ela que conhece suas carências. Você passa, finalmente, a ser dona do seu desejo.

Estou há meses tentando descrever como é chegar à segunda parte da vida: os 40 anos. Até que li esse ótimo (supracitado) texto da Martha Medeiros.

Das certezas que adquiri até agora posso dizer que adoro assistir aos Simpsons (e é o que está na TV agora) e milhares de séries americanas. Coca-cola é a melhor bebida do mundo. Os Beatles são a melhor banda do planeta. As Pontes de Madison foi o filme que mais me fez chorar. Woody Allen é meu diretor favorito, mas há sempre algum momento da minha vida que preciso assistir algo do Almodóvar. Gosto de faroeste. Prefiro os vilões, mas quero me casar com um mosqueteiro. Curto rock. Não gosto de cerveja. Não sou ambiciosa. Adoro conforto. Adoro gastar. Adoro ganhar presentes. Não gosto de dormir fora de casa. E como tenho preguiça…

Nada disso vai mudar.

No entanto, o mundo gira e a gente se transforma. Virei mãe, virei escritora, virei professora. Virei dona de casa, virei adulta. Ando cuidando da saúde. Ando me preocupando com a pele, rugas, flacidez, qualidade de vida. Aprendi a gostar de praia e verde. Passei a tomar remédio pra ansiedade, fiquei mais tolerante, mais tranquila, mas não há remédio no mundo que acalme meu coração quando está apaixonado (também achei essa frase brega). Também passei a achar as pessoas mais bestas, mais narcisistas, mais covardes. Por outro lado, fiquei mais sensível às pessoas de bem. Elas existem. Pode ser que eu mude de ideia amanhã.

Problemas da humanidade não me pertencem, só faço parte dela. Todo mundo é egoísta. Antes eu achava que uns eram mais, outros menos. Hoje não vejo mais assim. Acredito que a diferença entre um egoísta e outro é que uns sabem que são, e outros não. Nossos erros são sempre justificáveis, dos outros não. A gente sabe o que faz, os outros não. Toda tartaruga tem que ser um cachorro, quando a gente precisa de atenção.

Sabe que outro dia me chamaram de velha? Não, não foi simbolicamente. E foi com a mais perfeita intenção de agredir. Mas, pensando bem, sempre fui velha, desde (mais ou menos) os 25 anos, quando meus amigos de infância foram sendo substituídos pelos mais novos, sem filhos e não casados. Mas, desta vez, foi o primeiro momento que me senti velha fisicamente. Sad but true.

Sou meio infantil. Não sei em que parte, mas bom humor sempre foi uma característica. As pessoas envelhecem e param de achar graça em qualquer graça. Não sou brincalhona, não faço piada de tudo, mas acho graça do que tem graça, de graça. O mundo deveria ter mais pessoas como eu. Ou como você. Envelhecer é obrigatório, a graça da vida é opcional.

Bem-vindo à minha segunda parte.

Artes vitrais

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não para…

Todo mundo já se quebrou em milhares de pedaços diversas vezes. Esses cacos a gente consegue juntar um por um tentando criar uma nova arte. São pedacinhos da gente que precisam de encaixes diferentes para que tenhamos a sensação do novo, do poder recomeçar e se refazer.

Atualmente encontro-me recompondo, recriando meus caquinhos, um por um, tentando achar simetria, beleza ou algo que me traga a sensação de que está tudo novo de novo.

Não é fácil se reconstruir com a autoestima dilacerada. Não é algo que me sinto à vontade em expor, mas o maior inimigo da fé somos nós mesmos, que sabemos muito bem que é mais fácil juntar todos os cacos e jogar fora do que recomeçar. Já desisti de muitos sonhos, caminhos… mas, por incrível que pareça (ou por sobrevivência), não consegui ainda desistir de mim.

Estou aqui olhando meus montes de cacos no chão. Tenho a sensação de que meus tão delicados cacos são de vitrais coloridos e que meu cuidado ao recompor resultará em alguma obra de arte. Algo que possa fazer com que esses pequenos espelhinhos consigam refletir a luz que timidamente prefiro esconder.

Uma amiga fez uma viagem recentemente, e, contagiada desde então, vivo com a impressão de que ela foi se catar por. Nada como lidar com si mesma, ter a oportunidade de se ouvir e ver que existe um mundo muito além de nós. Além desses nossos medinhos infames, dessas nossas besteirinhas e dessa chatice, sujeira, mesmice, má fé e ignorância coletiva, que nos cercam involuntariamente todos os dias.

É preciso ter paciência. A minha pressa de ser feliz fez de mim uma arte mal feita. Por mim.

Ainda bem que percebi a tempo, acredito. Ainda bem que acredito.

Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara…
(Lenine)