Artes vitrais

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não para…

Todo mundo já se quebrou em milhares de pedaços diversas vezes. Esses cacos a gente consegue juntar um por um tentando criar uma nova arte. São pedacinhos da gente que precisam de encaixes diferentes para que tenhamos a sensação do novo, do poder recomeçar e se refazer.

Atualmente encontro-me recompondo, recriando meus caquinhos, um por um, tentando achar simetria, beleza ou algo que me traga a sensação de que está tudo novo de novo.

Não é fácil se reconstruir com a autoestima dilacerada. Não é algo que me sinto à vontade em expor, mas o maior inimigo da fé somos nós mesmos, que sabemos muito bem que é mais fácil juntar todos os cacos e jogar fora do que recomeçar. Já desisti de muitos sonhos, caminhos… mas, por incrível que pareça (ou por sobrevivência), não consegui ainda desistir de mim.

Estou aqui olhando meus montes de cacos no chão. Tenho a sensação de que meus tão delicados cacos são de vitrais coloridos e que meu cuidado ao recompor resultará em alguma obra de arte. Algo que possa fazer com que esses pequenos espelhinhos consigam refletir a luz que timidamente prefiro esconder.

Uma amiga fez uma viagem recentemente, e, contagiada desde então, vivo com a impressão de que ela foi se catar por. Nada como lidar com si mesma, ter a oportunidade de se ouvir e ver que existe um mundo muito além de nós. Além desses nossos medinhos infames, dessas nossas besteirinhas e dessa chatice, sujeira, mesmice, má fé e ignorância coletiva, que nos cercam involuntariamente todos os dias.

É preciso ter paciência. A minha pressa de ser feliz fez de mim uma arte mal feita. Por mim.

Ainda bem que percebi a tempo, acredito. Ainda bem que acredito.

Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara…
(Lenine)

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