Prozaquiando

Normalmente, pessoas que usam algum tipo de medicação controlada, não gostam de assumir o fato. Primeiro, por uma questão de privacidade. Segundo, porque não querem ficar expostas ao preconceito. Pensando bem, não é um bom cartão de visitas.

Uma vez, uma amiga me disse que preferiu não se envolver com um homem que lhe confessou ser depressivo e fazia tratamento. Charmoso não é. Parece atestado de problema. Você olha para trás e vê toda qualidade de homem-problema que passou pela sua vida, e agora um depressivo assumido? Ok, não parece uma boa ideia, mas, apesar de não saber do contexto, arrisco um palpite.

Particularmente, não me aborreço com supostos julgamentos. Não faz parte do meu currículo, nem diria numa entrevista de emprego, mas, em algum momento apropriado, não me importo em expor aos amigos minha condição de ansiosa, depressiva AND medicada. Não sei o que pensam a respeito, no entanto, se fosse eu a ouvinte, talvez não lhes levasse muito a sério. Eu e meu preconceito, claro.

Daí que lembrei que não há UMA pessoa que eu conheça que seja “normal”. Aliás, ninguém sabe o que é isso. Todas se descontrolam, brigam, choram, são bipolares (palavra na moda) e infernizam a vida de alguém, mesmo com todo amor do mundo. “Eu não”. Mas, nem eu. Todavia, quando olho para trás e vejo a quantidade de homens loucos que passaram pela minha vida, pensando bem, por que eu me assustaria justamente com aquele que se trata? Quando um homem me chama de louca, por impulso, primeiro mando que entre na fila. Mas, logo depois lhe asseguro que de todas as outras loucas que passaram por sua existência, sou a única medicada. E mais: o suficiente para saber que o “louco” da relação é ele, que não se trata. Claro que não dá certo. A louca com atestado sou eu.

No meu trabalho é algo comum. A maioria dos problemas físicos que tive (e os que aparecem) tem relação direta com minha profissão. No gastro, no cardiologista, no ortopedista… a primeira pergunta: “Em que você trabalha?”. “Sou professora”. “Huuumm, entendi”. Nem preciso revelar os sintomas para o tratamento. No psiquiatra não seria diferente. Professores, bancários e guardas de trânsito são campeões em medicação controlada. Sabia não? Pois é.

Tudo isso não se trata só da sua relação com o outro. Você não está se adaptando ou buscado um aprimoramento social. É muito mais a relação que você tem com você mesmo. As pequenas coisas permanecem pequenas. Chega de tempestades de copos d’água. Chega de se sentir tão agredida pela ignorância alheia. Chega de agredir as pessoas com a sua ignorância. Chega de se sentir mal por, talvez, ser diferente.

Óbvio que meu organismo já se habituou com a medicação, e a falta dele me faz mal tanto quanto qualquer tipo de abstinência, inclusive da Coca-cola. O que deve se ter em mente é que não existe pílula da felicidade. A gente precisa só de um freio para as emoções da gente que estão desgovernadas.

Hoje em dia meus alunos gostam de mim. Nunca achei que isso seria possível. Minhas relações sociais diminuíram, mas é só um reflexo acentuado de uma característica minha, algo que também não tive problema em me permitir. Passei a gostar um pouco mais de quem eu gostava de menos, e um pouco menos de quem eu gostava demais.

Não sou o melhor exemplo e nem sirvo de regra pra coisa alguma. Mas se, no fundo, você acha que precisa de ajuda emocional, passe por cima dos seus próprios preconceitos. Você encontrará ajuda, não pra ser assim como eu. Você vai encontrar ajuda para o tão sonhado desafio de ser apenas você.