Vida após a morte

Dos meus 42 anos de vida, há dois meses vivo sem o meu pai. Ele teve uma série de complicações, inofensivas a princípio, que em uma semana debilitaram seu corpo – frágil pelo tabagismo -, que resultou numa parada cardíaca.

Não vivíamos na mesma casa há aproximadamente uns 5 ou 6 anos, mas nunca saí de perto. Minha casa é exatamente em frente à casa dos meus pais. Desses 42 anos, convivi com eles todos os dias da minha vida. Raríssima exceções por alguma curta viagem. Todos os meus aniversários, dos meus irmãos, dos nossos filhos, todas datas comemorativas.

Há dois meses minha mãe não convive mais com seu marido, juntos há quase 50 anos. Há dois meses eu e meus irmão não temos o nosso pai. Não vou enfeitar o texto mostrando o quão maravilhoso ele era. Ele também era chato pra caralho. Mas tenho certeza que ele cumpriu com muita competência o seu papel, com todo amor e dedicação que um pai deve ter. E hoje estamos aqui com a sensação de que a vida que a gente tinha acabou, e que daqui para frente é um tudo de novo.

Tenho a impressão que luto não é dor. Luto é um estado de espírito que vai além de todas as dores que você já sentiu ou imaginou que poderia sentir. É algo além das emoções. Não é tristeza… É falta de vida dentro de nós. A vida que tivemos até hoje, morre. Eu já havia perdido algumas pessoas muito queridas, mas nunca alguém que fazia parte de mim. Já tive perdas materiais e emocionais. Já me senti humilhada, devastada. Já fiquei sem esperanças, sem direção, sem amor. Mas, nunca, nunca havia me sentido sem vida. No entanto, existe vida a nossa volta. Tudo continua igual e nada parou de funcionar. Só você.

Lidar com o mundo passou a ser um (re)aprendizado. As pessoas perguntam se está tudo bem. Costumo dizer que sim, mas a verdade é que eu não faço a menor ideia. Eu tenho que reconceituar minha vida pra saber.

Nós fomos imensamente acolhidos pelos amigos e familiares. Minha mãe recebeu visitas a semana inteira. Particularmente, rejeitei tentativas de aproximação: telefonemas, encontros, visitas, mensagens. Algumas respondi, mas, de todo coração, não sei qual foi o critério. Sei que muitos, se pudessem, até me pegariam no colo… Mas, eu só queria ficar sozinha e em silêncio.

Porém, existe um outro lado das boas intenções, que não posso deixar de alertar. Talvez por não saber ao certo o que nos dizer, alguns recorrem às religiões para tentar nos consolar. Preciso lembrá-los que geralmente os enlutados têm sua própria religião e estão lutando com ela. O melhor é dar um abraço e se mostrar solidário e amigo. Não chova no molhado, mesmo que seja de coração ou porque não encontrou palavras melhores. Não sabemos os planos de Deus, mas foi melhor assim. Deus sabe de todas as coisas. Ele agora está melhor. Com o tempo você se acostuma. Lembro de estar sentada na calçada de casa chorando, uma vizinha que não conheço muito bem, parou para me dar um abraço e dizer que meu pai era muito querido, que lamentava muito, mas que, por favor, era pra eu parar de chorar, porque era muito pior para ele se desligar da Terra. Tá bom? Tá bom. (TEU CU)

É verdade também é que a gente perde um pouco a fé, mas isso faz parte da falta de vida que disse ali em cima. Eu acredito em Deus, e quando tenho oportunidade, falo da minha fé. Quando meu pai faleceu, eu disse para Ele que não me revoltaria como muitos fazem. Disse que estava ciente de que um dia eu passaria por isso, que essa era a lei da vida e que nosso (eu e Ele) relacionamento ainda estava de boa. Só que… levei mais de um mês para falar com Ele de novo.

Há dois meses eu choro todos os dias, por motivos diferentes. É uma readaptação muito lenta. Tentamos não nos deixar levar e também a tentar lutar por nós mesmos. Eu ainda falo dele todos os dias, mas sem medo. Lembrar e falar do meu pai JAMAIS deverá ser uma tristeza. A saudade esmaga a gente e é com ela que a gente luta.

Tenho lido alguns livros que falam sobre espiritualidade. Curiosidade de saber como ele pode estar “vivendo” num outro lugar. Se pode nos ver ou estar por perto. Se está bem, se está feliz, se estão cuidando bem dele.Ninguém e nem nada nesse mundo pode censurar o meu choro, mas entendo que, independente de religião, o melhor, inclusive para nós mesmos, é lembrar dele com muito amor e alegria. É muita pretensão achar que cuidaríamos melhor do meu pai, mas mesmo assim sempre peço a Deus que cuide bem dele por nós, e que transmita todo amor que a gente sente.

Enquanto isso, por aqui a gente tenta manter o seu legado. Queria contar pra ele o que a gente tem feito. Aliás, pai, hoje eu coloquei o rejunte no box. Aquele que você deixou aqui e disse para eu fazer porque era facinho. Fiz igual a minha cara. Você faria melhor, mas… nosso lema é fazer mesmo sem saber, porque no final Deus ajuda e a gente sempre acerta. Ou não. :-P

Às vezes penso que poderíamos ter feito diferente. Todas as vezes que ele foi ao médico e este determinou repouso, que deveríamos ter arrumado um jeito de amarrá-lo em algum lugar. Ele subia na casa pra olhar a caixa d’água, ia à mercearia e trazia peso, mudava os móveis de lugar, ia bater perna na rua. Não adiantava brigar. Ninguém mandava nele. O que me consola é que ele sempre foi dono da sua vida.

A morte existe.E ela não leva apenas quem se foi. A gente fica aqui num tipo de realidade paralela, reaprendendo, reconceituando, sobrevivendo.Sei que vai chegar um dia que não teremos aquela pontinha de angústia ao reunir toda família. Sei que nossos filhos darão (mais) sentido às nossas vidas, ao nosso trabalho, às festas e em algum momento tudo volta algo que seja próximo ao “normal”.

Às vezes quero acordar desse pesadelo, que se tornou vida.

Que Deus nos ajude a voltar a sonhar.

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